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segunda-feira, 5 de outubro de 2026

Guiné 61/74 - P28404: Notas de leitura (1968): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 2 (Mário Beja Santos)

1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 9 de Maio de 2026:

Queridos amigos,
Foi bom revisitar esta obra pioneira da literatura da guerra colonial. Dos autores escolhidos, alguns irão figurar como figuras proeminentes da literatura contemporânea, caso de António Lobo Antunes, Carlos Vale Ferraz, Lídia Jorge, Álvaro Guerra ou João de Melo. Este último, o organizador da antologia, deu também voz a escritores nacionalistas que se iriam impor como nomes sonantes, caso de Luandino Vieira ou Pepetela. Ninguém ignora que de 1988 à atualidade este subgénero literário cresceu desmesuradamente, falta-nos um João de Melo para nos dar uma panorâmica atualizada da evolução desta literatura, na multiplicidade das suas vozes. Porque é indispensável ir acompanhando tudo quanto se escreveu em Angola, Guiné e Moçambique, e se os diferentes candidatos a organizadores não se sentirem com traquejo de se meterem na empreitada a uma só voz, então que façam a organização a três vozes. Precisamos de, como de pão para a boca, de tal iniciativa.

Um abraço do
Mário


Revisitar uma obra de referência sobre a história da literatura da guerra colonial – 2

Mário Beja Santos

Os levantamentos de obras literárias relacionadas com a guerra colonial são poucos e estão perfeitamente identificados. A primeira iniciativa coube ao escritor e ex-combatente João de Melo, a primeira edição de Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os portugueses em África, Crónica, Ficção e História, data de 1988 e abarca obras que se prendem com a preparação militar, os teatros de operações da Guiné e Angola, obra em dois volumes com edição do Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote. Como é óbvio, a edição está completamente esgotada, mas ainda é possível através de vendedores online conseguir adquiri-la por cerca de 30€, tanto a edição do Círculo de Leitores como a de Publicações Dom Quixote.

Este segundo volume abre uma apresentação histórica da guerra em Moçambique feita por Joaquim Vieira, e desse teatro de operações vamos retirar um texto assinado por Carlos Vale Ferraz, que está inserido na obra-prima deste escritor intitulada Nó Cego, primeira edição em 1972; muda-se de direção e Joaquim Vieira contextualiza os acontecimentos da Guiné, há belas páginas de Álvaro Guerra, como também de José Martins Garcia, autor de uma obra de referência, Lugar de Massacre; de novo Joaquim Vieira apresenta uma exposição sobre as forças armadas portuguesas, irão intervir escritores como Lobo Antunes, Lídia Jorge ou João de Melo.

Carlos Vale Ferraz recenseou admiravelmente o modo como terá sido apresentada a operação Nó Górdio, parecia ser a solução mágica para acabar com a guerra de guerrilhas em Moçambique:
“Meus senhores, hoje é um dia histórico! – assim começou o general antes de prosseguir:
- Vamos dar início ao planeamento final da operação que desequilibrará decisivamente a situação sociomilitar em Cabo Delgado a nosso favor. Vamos dar a estocada de morte no coração do inimigo no planalto dos Macondes. – Sorriu a observar o efeito das palavras na assistência e continuou:
- Nome de código: Nó Cego, classificação de segurança: muito secreto. Com esta operação inauguraremos a época da guerra de grandes meios em ordem ao aniquilamento total do IN. Vamos concentrar o nosso esforço aqui!

Quando o general pronunciou ‘aqui!’, um coronel atarracado, de barba cerrada numa queixada tetraédrica a fechar uma cabeçorra demasiado grande em relação ao corpo, apontou com uma lapiseira extensível três círculos desenhados a cores sobre a mica que cobria os mapas que ele próprio destapara anteriormente, com gesto de contrarregra a correr a cortina do palco.

- Graças aos esforços conjugados das repartições de informações militares e da DGS é agora possível saber a localização exata das três grandes bases IN no planalto dos Macondes: a Gungunhana, a Moçambique e a Nampula. Graças às essenciais modificações em comandos, com a vinda do senhor brigadeiro para o setor de operações e do senhor tenente-coronel para o Batalhão de M., a situação alterou-se profundamente para melhor. – O General fez uma pausa, que o coronel aproveitou para colocar novos mapas, e prosseguiu:
- O conceito da operação é o seguinte: cerca-se esta zona – o coronel apontou -, aproveitando as estradas existentes e construindo com a engenharia as que faltam, para fechar um quadrado de cerco que será guarnecido com emboscadas permanentes realizadas por tropas normais e patrulhamentos regulares com esquadrões de reconhecimento. Quando a ratoeira estiver montada, quando ninguém puder entrar ou sair, lançaremos ao assalto das bases as nossas companhias de tropas especiais, os comandos para a base Alfa, nome de código de Gungunhana, os paraquedistas para a Bravo, a Moçambique e os fuzileiros, em segunda fase, para a Charlie, a Nampula. – Os oficiais do Estado-Maior e os civis das informações abanavam a cabeça de aprovação. – Há dúvidas? - Perguntou o general sem as esperar, continuando:
- Dentro deste quadrado tudo o que mexer é inimigo, será a guerra total! Nesta guerra, meus senhores, não existe a clássica divisão estabelecida entre povos civilizados de cultura cristã ocidental, que distingue combatentes e civis não beligerantes, nesta guerra as próprias populações, de acordo com a estratégia marxista, são o sustentáculo de subversão. Assim, todo o ser vivo encontrado é um inimigo a abater. Esta é uma luta de vida ou morte!”


Recorda-se ao leitor que João de Melo entendeu fazer esta antologia a quatro mãos, ou seja, introduziu alguns textos de escritores africanos ligados às chamadas lutas de libertação nacional.

Antes das suas publicações em livros, Álvaro Guerra publicou um conto intitulado “O Tempo Em Uane” em Antologia do Conto Ultramarino, organização de Amândio César, em 1972 e, anteriormente, em Histórias Breves de Escritores Ribatejanos, Antologia organizada por António Borga, Lisboa 1968. A obra consta neste volume de Os Anos da Guerra, mas preferi escolher um texto de um dos seus primeiros livros, intitulado O Disfarce, que teve a sua primeira edição em 1978:
“Sugeriram-lhe que deitasse fogo à aldeia antes de se irem embora e ele recusou porque a sua guerra não era a mesma em que se estava a bater, a sua ainda não tinha começado, seria uma guerra de ganhar ou perder e não aquela, se bem que duvidasse que essa outra guerra alguma vez chegasse. O mais rapidamente que puderam iniciaram a corrida desigual através das picadas traiçoeiras, corrida contra a surpresa que estaria montada algures no seu caminho (…) Foi logo a seguir. Caiu em cima deles a surpresa, uma chuva de ferro, estampidos e silvos de ar vergastado e quedas e ramos partidos e pragas e explosões e o gargalhar fantasmagórico das rajadas matadoras e o homem ao lado dele com o sangue no ventre e nas mãos que disse ‘Ai, mãe!’ e morreu.

Atrás da sua árvore levou a mão ao bolso e tirou-a, a reluzente granada com quem os seus dedos andavam calhados de amor e vício, puxou a argola amarela num repente de furor e ficou um momento a mirá-la, a cavilha apenas presa pelos dedos brancos de força enquanto, desfocado, o cadáver do ventre sangrento o olhava fixa e friamente; jogou-se para a luz, para lá do escudo eleito, e atirou-a para de onde vinha a morte sonora e invisível que semeava surpresas de sangue. Por um momento foi a rainha da metralha e da luz ondulante de calor e do inacessível outro lado da estrada e foi esperança também, soturna esperança subindo numa nuvem de pó castanho após deflagrar e se desfazer como um velho astro em meteoritos escaldantes. Mas já não estava sobre o coração, nem à cintura, nem no bolso, e ele ficou terrivelmente tranquilo, monstruosamente tranquilo e sozinho, a pensar na mulher de quem gostava, na adolescência provinciana e em certos lugares seus preferidos e em como eles seriam se e quando lá voltassem, enquanto, tranquilamente, disparava a metralhadora. Tudo estava aviado, até o esquecimento.”


Outro autor que se impôs nas décadas de 1970 e 1980 foi um ex-oficial que teve comissão na Guiné, José Martins Garcia, irá ter obra extensa e variada, mas houve um livro que então ganhou notoriedade e ainda hoje é motivo de estudo académico, intitulado Lugar de Massacre, com primeira edição em 1975, distingue-se por uma inteira rebeldia, quadros de regabofe, com tiradas delirantes, atmosferas surreais, fica aqui uma amostra dessa trama que oscila entre a sátira e o truculento:
“Eram sete, na camarata, todos por conta da Neuropsiquiatria, no Hospital Militar de Bissau, no mês de maio de 1968, gozando os benefícios do ar condicionado e da desintegração psíquica. O maior falador chamava-se Barnabé e fora enlouquecido por problemas alimentares. Contava as suas desventuras várias vezes por dia, amaldiçoando o ex-comandante do batalhão, um diabético insuportável, cujo ódio aos saudáveis atingira a demência, a ponto de punir com alguns dias de prisão todo aquele que ousasse levar para a mesa qualquer iguaria além da ementa.

- Estou vingado! – rematava o Barnabé.

Vingado pelo novo Governador, de quem já circulavam notícias contraditórias: para alguns tratava-se de mais um louco; para outros, de um justiceiro. Chegara ao batalhão do comandante diabético, vira o descalabro da unidade e prevenira: ‘Faça as malas’. Dez dias de prisão. Justiça.
- Há um mês que estou aqui, nos malucos – disse Barnabé. – Ao fim ao cabo, não se está mal. Vais ver como te habituas…

Desciam para a consulta, empijamados. Mostravam-se atulhados os corredores do hospital. Desde as pernas partidas às chagas repugnantes, desde as bochechas inchadas por abcessos dentários até às vítimas trémulas do paludismo. E havia os que, de muletas, entravam para a grande lista das vítimas das minas, sem pés, às vezes sem pernas. Um bafio monstruoso, agora acentuado pela chuva (…) – Não tenho nada contra o seu riso – disse o psiquiatra. – O riso liberta. Mas, quando puder, fale.

Voltou à camarata, ao entardecer, e reconheceu que os helicópteros eram reais. Foi até à varanda e pôde certificar-se da existência de um grande inseto acionado por hélices. Do bojo eram retirados os feridos envoltos em ligaduras. Depunham esses montes de carne humana em macas de cabos luzidios de tanto serem percorridos por mãos suadas de maqueiros. O hospital absorvia toneladas de carne esfacelada, múmias recentes, arrobas de membros partidos, porque a estação das chuvas trazia o aumento dos desastres bélicos.

Mas quem não perdia uma só de tais cenas ensanguentadas era o alferes Jardim, um novato que, antecipando-se à sorte, chegara à Guiné já absolutamente desequilibrado. Tinha amado a tal ponto os estudos de Engenharia que não lhe escapava manivela, maquineta, alavanca ou válvula sem verificação das possibilidades funcionais. Adorava a eficiência do helicóptero. Mal lhe ouvia o rumor, corria para a varanda, envergando o pijama mais porco de todo o hospital, porque a paixão pela técnica o levava a oleosos sítios, onde chafurdava, feliz, em porcaria de toda a sorte, limpando em seguida mãos sumárias ao pijama já de cor indefinida. Ficava fascinado pela máquina. Assistia, soprando entusiasticamente, à descolagem. Seguia com olhos piscos até à confusão da máquina com a bruma. E suspirava, saudoso, na despedida, todo entregue à esperança da próxima carnificina.”


Assim se põe termo a uma importante obra que se revisita com prazer, obra pioneira, com enquadramento histórico de Joaquim Vieira e uma antologia variegada de onde emergiram vultos literários como João de Melo, Álvaro Guerra, Carlos Vale Ferraz ou José Martins Garcia.

João de Melo
Carlos Vale Ferraz (1946-2025)
José Martins Garcia (1941-2002)
Álvaro Guerra (1936-2002), imagem dos Arquivos da RTP, com a devida vénia
Duas imagens retiradas do livro "Os Anos da Guerra", organização de João de Melo
Capa da edição de Os Anos da Guerra, Publicações Dom Quixote
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Notas do editor:

Vd. poste de 28 de setembro de 2026 > Guiné 61/74 - P28382: Notas de leitura (1966): "Os Anos da Guerra, 1961/1975, Os Portugueses em África, Crónica, Ficção e História", por João de Melo; Círculo de Leitores e Publicações Dom Quixote, 1988 - 1 (Mário Beja Santos)

Último post da série de 2 de outubro de 2026 > Guiné 61/74 - P28394: Notas de leitura (1967): O espólio fotográfico de Álvaro de Barros Geraldo (1955-1975) - 2 (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 19 de janeiro de 2026

Guiné 61/74 - P27650: Notas de leitura (1887): "Soldadó", de Carlos Vale Ferraz; Editorial Notícias, 1997 (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 29 de Julho de 2025:

Queridos amigos,
Nunca entendi este discreto silêncio dos editores de Carlos Vale Ferraz face a esta extraordinária narrativa publicada em 1997 pela Editorial Notícias. É uma tragicomédia como não há outra na literatura da guerra colonial, numa atmosfera que prima pelo grotesco, onde sobressai a teatralidade de figuras únicas desta literatura, um recém-comandante chegado a um temível destacamento de guerra, analisa-se o processo que poderá levar à condecoração de um soldado básico multifuncional, de cangalheiro a fiel de armazém e guarda-costas de prostitutas, assomam o Capitão Gorgulho, veio castigado, o Majorué, o oficial de Operações mais divertido de toda esta literatura, um Segundo-Comandante pouco dado à inteligência, o anarca Capitão Baltazar, um Capelão cheio de latinório, mas com muitas culpas no cartório quanto a sexo escondido e respetivas doenças. Soldadó merecia sair da sombra e voltar ao nosso convívio, aquela instituição militar já não existe e muito bem podia ter acontecido naquela guerra colonial o que aqui se conta com a verve de humor que nos faz rir a bandeiras despregadas.

Um abraço do
Mário



Soldadó, uma das obras mais belas de Carlos Vale Ferraz

Mário Beja Santos

Dedicado “Aos que gostam de mim”, a obra Soldadó, de Carlos Vale Ferraz foi publicada em 1997 pela Editorial Notícias. Penitencio-me de ter sido avaro na recensão dediquei a esta mirabolante, herética e apoplética narrativa. Sou levado a concluir que ler o livro para fazer a recensão tem a nobre exigência de a ele voltarmos com a memória arrefecida, é este um desses flagrantes casos em que se retoma a leitura, surgem revérberos caleidoscópios, novos ângulos, outro sentido das frases, uma maior subtileza para as mensagens que correm na estrada principal. 

Soldadó não era o livro humorístico, do bota-abaixo, de corrosivas caricaturas da instituição militar. Bem vistas as coisas, este soldado bronco, de obediência e fidelidade caninas, o mais improvável dos heróis, toda aquela atmosfera teatral em que vai decorrer a inquirição que poderá permitir a condecoração do Soldadó, revela o talento e a verve cáustica do escritor que põe em causa os consagrados valores da guerra colonial perfilhados pelo Estado Novo. Vamos aos factos.

Ele chama-se Fergusino do Ó, vem de um lugar ermo do Nordeste Transmontano, descoberto pela GNR quando andou a percorrer itinerários para o censo de 1960. Não é atirador Infante, cavaleiro ou artilheiro, é um soldado básico, pau para toda a obra, suficientemente ajustável para agir como cangalheiro, sacristão, fiel de armazém, projecionista de filmes pornográficos, guarda-costas daquelas meninas que vêm episodicamente minorar a vida agreste dos militares em Mueleka (será Mueda?).

Iremos conhecer a sua história tudo contado em ambiente fechado onde protagonizam figuras ímpares da literatura da guerra colonial: o recém-chegado Comandante, um vigoroso Tenente-Coronel de Infantaria a quem o cabelo cortado à americana, rapado dos lados nivelado no topo com qualquer máquina da família dos aparadores de relva, assemelhava a um boxeur retirado dos ringues; o Segundo-Comandante, um major pacato e gorducho, responsável pelos assuntos administrativos, cujo verdadeiro nome ninguém sabia e a quem todos tratavam por Segundo, o nosso Segundo, uma criatura apagada, de estômago atazanado por uma úlcera, sujeitando-se a uma dieta rigorosa, tinha fama de pouco dotado de inteligência; o narrador das diligências sobre a vida e obra do Soldadó, o Capitão Gorgulho, um inofensivo professor primário, de pernas curtas, braços compridos e peludos, viera punido para Mueleka, mas não parecia nada incomodado com a punição que o retirara do honroso posto à frente de tropas em campanha; a inesquecível figura do major de Operações, Majorué, um primor nos dichotes, nos comentários com vitriolo, ninguém lhe leva a palma. Outros surgirão, como o Capelão e o Alferes do Pelotão de Intendência.

Que pretende contar o Capitão Gorgulho de tudo quanto se sabe sobre o Soldadó? Veio de Cabeça Seca, quando chegou ao Regimento de Infantaria 13, havendo falta de espaço das casas quadriculadas dos mapas de registo passou a ser Soldado do Ó e depois Soldadó. À primeira vista, parecia destinado a ser atirador, o pior foi quando lhe puseram uma arma nas mãos, andou hilariante a disparar rajadas, todos se puseram de acordo que ele devia ser afastado do convívio com as armas de fogo, foi reclassificado como soldado básico. Veio a convocatória para a guerra, o assunto parecia tê-lo deixado indiferente. Também se faz uma reflexão sobre a tentativa de civilizar aquela gente de Cabeça Seca, enviou-se um padre, um bom homem que não foi bem-sucedido nas intempestivas discussões com o feiticeiro da terra, no fundo as gentes de Cabeça Seca tomavam como mau agoiro a presença de estranhos no seu seio.

E também se conta o cerimonial da partida do contingente militar no cais de Alcântara, vale a pena tomar nota do que escreve o autor:
“A magalagem pendurada nos bordos do Niassa era mais que moscas em boca de cão morto e cá em baixo juntava-se uma multidão de paisanos maior que um tapete de formigas carregadeiras dentro de um açucareiro. Acenavam desesperadamente aos militares embarcados e estes respondiam desensofridos, como se tivessem esquecido alguma coisa muito importante em terra, saltavam e guinchavam, demonstrando uma incompreensível raiva de condenados, ali conduzidos presos por uma corda.”


O recém-chegado comandante vai de assombro em assombro, faz perguntas aos outros oficiais, recebe respostas calmas e aparentemente sustentáveis. É nisto que bate à porta um Capitão, o Capitão Baltazar, fala-se do trabalho do Soldadó na sua atividade de cangalheiro. O Capitão Baltazar solta um prolongado uivo, o Majorué anuncia que ele está apanhado pelo clima, o comandante anda lívido com todos estes disparates que presencia.

O Segundo-Comandante elogia as atividades do Soldadó como cangalheiro:

“A princípio custara-lhe um pouco desenrascar-se, porque os corpos apareciam todos desengonçados das minas e outros vinham já muito rijos e era preciso dobrar-lhes os membros à força, mas com boa vontade tudo se resolvia. Ultimamente até os lavava para limpar o sangue e a pólvora, preferia os mortos pequeninos, para caberem nas urnas logo à primeira e de cara composta. No cemitério, enterrou dois mortos de cova, em beliche, para poupar espaço e trabalho.”


Entra em cena o Alferes do Pelotão de Intendência, era o responsável pelo Soldadó. Estamos já em Mueleka, foram contadas todas as peripécias da viagem, é nisto que o Majorué se revela desabrido com o Capelão e denuncia-o pelas suas piruetas sexuais, deixa o Capelão encavacado. O Alferes continua a sua apreciação das atividades do Soldadó, era doido por guardar armamento, incapaz de desperdícios, recolhia dos falecidos ouro e prata, notas e moedas. E, imprevistamente, acontece o seu feito heroico, o Comandante Militar e a sua comitiva vieram visitar Mueleka, é durante a visita que acontece um vendaval de fogo, prontamente o Soldadó, a peito descoberto, despejou os carregadores da espingarda, mais as fitas disponíveis na metralhadora, contra a orla da mata à sua frente, só parou depois de ter sido ferido por um estilhaço, o Soldadó será o único ferido daquela estranhíssima refrega, o General entendeu que se devia fazer o reconhecimento, a sua comitiva estava ansiosa por partir, ninguém gostara daquele inesperado tiroteio, e o recém-chegado Comandante fica ainda mais atónito quando se descobre que todo aquele foguetório tinha sido operação montada dentro de Mueleka.

O Alferes da Intendência, encarregado de organizar o processo do Soldadó herói descobre um facto estarrecedor: o Soldadó está há quatro anos em Mueleka, mais uma história difícil de descalçar a bota.

Não é nada conveniente contar como tudo acabou, quem faz recensões não é desmancha prazeres, se houver mistificação e mentira em todo aquele feito heroico era necessário levá-lo a bom porto. Foi o que aconteceu, dentro de alguns anos o povo de Cabeça Seca erguerá um monumento a esse militar de sublime comportamento.

Se é verdade que falta a Soldadó a dimensão de Nó Cego, a obra-prima de Carlos Vale Ferraz, porventura a mais importante obra de toda a literatura da guerra colonial, reconheça-se que esta tragicomédia devia ser reeditada, é uma narrativa de arromba.
Carlos Vale Ferraz, pseudónimo literário do Coronel Carlos de Matos Gomes (1946-2025)
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Nota do editor

Último post da série de 16 de janeiro de 2026 > Guiné 61/74 - P27639: Notas de leitura (1886): Notas soltas sobre a renovação do nacionalismo imperial português (Mário Beja Santos)

quinta-feira, 25 de setembro de 2025

Giuiné 61/74 - P27254: Notas de leitura (1841): "O capelão militar na guerra colonial", de Bártolo Paiva Pereira, capelão, major ref - Parte I: Apresentação sumária (Luís Graça)


 Capa do último livro de Bártolo Paiva Pereira, padre da diocese de Braga, capelão militar, capelão-chefe do CTIG (1965/67); nascido em 1935, em Santo Tirso,  foi ordenado sacerdote em 1959, em Braga; foi capelão militar desde 1961, em Angola, e serviu nas Forças Armadas durante 30 anos (um caso raro de dedicação à Pastoral Castrense; é hoje major do exército na situação de reforma;  também exerceu o seu múnus espiritual no seio da diáspora portuguesa na Suíça; é autor de uma dezena de livros; vive em Vila do Conde, é vizinho e amigo do nosso camarada Virgílio Teixeira.

Esta última obra, que acaba de sair,  é edição de autor (Vila do Conde, 2025, 120 pp.). A capa é de Joaquim António Salgado de Almeida. Depósito legal nº 548769/25. Não tem ISBN. Impressão: Gráfica São João, Fajozes, Vila do Conde. 

O autor não tem endereço de email. Não sabemos se o livro está à venda. Nem como adquiri-lo.  Um exemplar autografado foi gentilmente oferecido ao nosso blogue. Agradecemos ao autor e ao Virgílio Teixeira, que no-lo enviou pelo correio. 

Oportunamente faremos mais notas de leitura. Esta é uma primeira apresentação. Para já temos a devida autorização para reproduzir excertos que possam interessar aos amigos e camaradas da Guiné.



Dedicatória autografada ao editor LG. Infelizmente o autor não conhece o nosso blogue.Mas registamos, com apreço, a oferta de um  exemplar do livro que iremos divulgar. Temos a sua autorização para o reproduzir no todo ou em parte. Interessa-nos particularmente a sua visão e o seu testemunho sobre o papel dos capelães militares durante a guerra colonial.

O capelão padre Bártolo Paiva Pereira (nascido em Lama, Santo Tirso, a 3 de setembro de  1935) conheceu o cap cav comando Carlos Matos Gomes (1946-2025), no Regimento de Comandos da Amadora, quando ali era capelão, a convite do então tenente-coronel, graduado em coronel, Jaime Neves (1936-2013). Já na altura era capelão graduado em major. Para um conhecimento detalhado do seu currículo militar, como capelão, vd. o portal UTW - Dos Veteramos da Guerra do Ultramar.



Índice da obra: demasiado descritivo e detalhado, ocupando 5 páginas e meia de uma obra que tem 120 pp., e é ilustrado com cerca de 2 dezenas de imagens.



Padre Bártolo Paiva Pereira
(n. 1935). Vive em Vila do Conde.
Foto: Virgínio Teixeira (2025)

1. No essencial, o livro, parcialmente autobiográfico e memorialístico, tem 6 capitulos: 1. Manhã de Todos os Santos: novembro de 1961; 2. Assistência religiosa às Forças Armadas; 3. O capelão  militar: perfis; 4. Ter uma Pátria na cabeça dói muito; 5. Pessoas & acontecimentos; e 6.  Para evangelizar não é preciso  aportuguesar.

O livro lê-se muito bem, num ápice. O autor escreve bem,  é expressivo, e tem uma excelente memória para quem já está na casa dos 90. Enviei anteontem, 23 do corrente, ao Virgílio Teixeira, uma primeira mensagem, que ele fará o favor de dar a ler ao nosso padre Bártolo:

Virgílio: fui levantar hoje o livro aos correios (na Lourinhã). Mas já estou em Alfragide. Fico-te muito grato pela gentileza. A ti e ao nosso capelão... Dei uma vista de olhos. Já percebi que o autor é pessoa lida, culta, experiente, viajada, frontal, inteligente...

Vou fazer várias notas de leitura (**) e reproduzir 
alguns excertos mais relevantes para a malta do blogue. 
É um testemunho imprescindível para a história da capelania militar. 

Tem, naturalmente, algumas inexatidões. Mas só vi por alto. Por exemplo, o padre Arsénio Puim, açoriano, capelão no meu tempo, em Bambadinca, só deixou o sacerdócio em 1979 (tenho que confirmar). Vou mandar alguns textos sobre ele, para o padre Bártolo o conhecer.

O Mário de Oliveira foi, sem dúvida, um homem e um padre mais polémico. Ainda ao tempo do Bártolo, e do gen Arnaldo Schulz. Depois de vir da Guiné, e antes de ir para a Lixa, foi pároco da freguesia onde se situa a nossa quinta de Candoz, Paredes de Viadores, Marco de Canaveses. Conheci-o no meu...casamento, no dia 7 de agosto de 1976. Lá em Candoz, já ele tinha saído desta paróquia.

Enfim, com tempo e vagar falaremos dos nossos capelães, todos eles estimados. O seu papel não era fácil. Dá os parabéns ao teu amigo, e nosso camarada. E que Deus lhe dê vida e saúde para poder continuar a escrever, a publicar e a partilhar connosco memórias de uma vida cheia. É um exemplo notável de como podemos continuar a caminhar na nossa picada da vida, a partir do km 90, de maneira ativa, proativa, produtiva e saudável. (...)

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Notas do editor LG:

(*) Vd. postes de:


14 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27218 Efemérides (467): Homenagem do povo de Vila do Conde, no passado dia 9, ao Padre Bártolo Paiva Gonçalves Pereira, capelão-chefe no CTIG (1966/67) e autor do recente livro de memórias "O Capelão Militar na Guerra Colonial" (Virgílio Teixeira, ex-Alf Mil SAM, CCS/BCAÇ 1933, 1967/69)

(**) Último poste da série > 22 de setembro de 2025 > Guiné 61/74 - P27241: Notas de leitura (1840): Mais perguntas do que respostas nestas fotografias em tempos de Império (Mário Beja Santos)

segunda-feira, 16 de junho de 2025

Guiné 61/74 - P26925: Notas de leitura (1809): Guiné - Os Oficiais Milicianos e o 25 de Abril; Âncora Editora, 2024 (1) (Mário Beja Santos)


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 30 de Maio de 2024:

Queridos amigos,
Aparece finalmente uma coletânea de depoimentos dos milicianos que intervieram entre 1973 e 1974, em convergência com os oficiais do quadro permanente, na formação e atividade do MFA da Guiné, são depoimentos que em alguns casos forçosamente se repetem mas há em muitos deles a singularidade do testemunho, um olhar lúcido sobre a evolução da guerra, a participação nas conversações com os quadros do PAIGC, muitos deles dão conta do anacronismo das pretensões de Spínola fazer um referendum na Guiné quando já houvera o reconhecimento internacional para um Estado soberano que terá a liderança do PAIGC. Esta obra, que se saúda pela pertinência dos testemunhos, tem o poder de complementar um acervo de depoimentos e análises do MFA da Guiné, em que constam nomes como Sales Golias, Duran Clemente, Carlos de Matos Gomes e António Duarte Silva.

Um abraço do
Mário



Os milicianos no MFA da Guiné (1)

Mário Beja Santos


Muito se tem escrito sobre a formação e atividade do MFA da Guiné, intervenientes como Sales Golias, Duran Clemente, Carlos de Matos Gomes, investigadores como António Duarte Silva, são algumas das figuras mais salientes desse fenómeno original de um movimento altamente sigiloso formado em 1973 e que ganhou vida própria. É facto que a presença dos milicianos não é descurada da narrativa, aparece sempre a figura do capitão José Manuel Barroso, mas quanto à competição do desempenho dos milicianos ainda não existia um conjunto organizado de depoimentos, e daí saudar-se esta obra coletiva intitulada "Guiné Os Oficiais Milicianos e o 25 de Abril", com doze testemunhos de participantes, e aonde não falta a lembrança daqueles que já partiram como José Aurélio Barros Moura, Luciano Avelãs Nunes, Jorge Cabral Ventura e Joel Hasse Ferreira, Âncora Editora, 2024.

O primeiro depoimento cabe a Álvaro Marques que dá ênfase à crise académica de 1969 e à incorporação nas Forças Armadas. Esteve em Mafra e em Santarém, aí conheceu Salgueiro Maia, é amnistiado em 1970, reincorporado em 1972, tem uma troca de palavras com Spínola, este convida-o para um jantar no Palácio, não esconde ao general que aquela guerra perdeu sentido, segue depois para Aldeia Formosa, recebe o convite do capitão José Manuel Barroso para vir para Bissau trabalhar no PIFAS, vai fazer parte do Núcleo de Luta Anticolonial, irão juntar-se, entre outros, Celso Cruzeiro, Barros Moura, Sacadura Botte, estes pretenderam ser advogados de Coutinho e Lima, que estava preso no Cumeré, a ira de Spínola não se fez esperar, Barros Moura foi despachado para S. Domingos; o núcleo alargou-se, vão assistir à criação do MFA em Portugal, o MFA da Guiné passa a ter estatuto próprio, incluindo o projeto de desencadear o golpe de Estado, caso falhasse o de Lisboa.

Os milicianos terão desempenho na criação do MAPOS, um movimento para a paz que em 1 de julho aprovou uma moção onde se repudiava qualquer solução local e unilateral que não fosse aceite pelo Governo central em Portugal, exigindo que fossem imediatamente reatadas as negociações com o PAIGC e, ponto curioso, “Apelar para que os militares portugueses encarem a sua presença atual e estrutura na Guiné como uma forma de prestar a sua cooperação desinteressada ao povo da Guiné, assim contribuindo para o pagamento da dívida histórica criada pelo colonialismo português.” Álvaro Marques refere o seu trabalho na publicação Voz da Guiné.

O segundo depoimento pertence a Amaro Jorge, que foi alferes miliciano no Batalhão de Intendência de Bissau, também esteve ligado à crise académica de 1969, pertenceu aos Serviços Auxiliares, assim chega à Intendência de Bissau, colocado na chefia da Secção de Reabastecimentos, dá-nos conta da delicadeza do que era organizar a listagem de bens, combustíveis e outros, havia sempre comida a estragar-se ou a desaparecer. Foi destacado da Intendência para o Palácio do Governo, para adjunto do Governador, tendo ficado com os assuntos do pessoal e das relações de trabalho. Regressou a Portugal em 1 de setembro.

O terceiro testemunho vem de Canhoto Antunes, foi capitão miliciano, este em Madina Mandinga, Nema e Empada. Estagiou na Guiné integrado na CAOP 2 (Gabu), voltou a Mafra, forma a CCAÇ 4944, conta por onde andou, a atividade operacional, incluindo em 26 de maio de 1974 que houve 10 feridos numa emboscada. Chegou a Empada em 4 de junho, estabelecem-se contactos com o PAIGC. Regressa a Lisboa em 28 de setembro, em plena manifestação da “maioria silenciosa”, o que os obrigou a vários stops nas estradas até casa, até pensou que saíra de uma guerra para entrar noutra.

O quarto testemunho pertence a Celso Cruzeiro, da chefia do serviço de Justiça do Quartel-General, redator do Voz da Guiné. Chamo a atenção para o reconhecimento que os jovens capitães cedo fizeram do papel desempenhado pelos milicianos, eles contribuíram para melhor compreender a guerra como fenómeno dependente dos interesses do poder económico e do sistema de influência geopolítica. Salienta a importância dos encontros na Guiné em 1973 entre os jovens oficiais do quadro permanente e o conjunto dos oficiais milicianos ali presentes, ao longo dos primeiros meses de 1974 foram-se estreitando os laços. Recorda o abaixo-assinado lançado no dia 28 de abril de 1974 e dirigido ao Presidente da Junta de Salvação Nacional, solicitando um cessar-fogo imediato e conversações prontas com o PAIGC; fará um historial das etapas subsequentes, as conversas havidas entre Fabião e Spínola, a importância dos Movimento para a Paz, à institucionalização do MFA da Guiné, a ira de Spínola que convocou para Lisboa vários oficiais do quadro permanente e milicianos e recorda, em jeito de conclusão, que a participação dos milicianos tinha a dupla preocupação de colaborar com o MFA no processo de descolonização da Guiné e, por outro lado, fornecer uma base mínima de politização ao contingente dos soldados portugueses. Não deixa de lamentar como o novo país independente vestiu rapidamente o manto dramático da tragédia em que permanece.
Gadamael, maio de 1974. A primeira visita do PAIGC à tabanca e aquartelamento de Gadamael: Em primeiro plano, ao centro, o Comandante do COP5 (Cap Ten Fuzo Patrício); do seu lado direito está o comissário político do PAIGC, de cigarro russo na boca. Imagem retirada do nosso blogue
Pirada, primeiros contactos com o PAIGC, junto à fronteira do Senegal com o fim de combinar a "passagem de testemunho", dirigido pelo Comandante Jorge Matias, do BCAV 8323. Fotografia de António Rodrigues, com a devida vénia
China, Amílcar Cabral e o PAIGC: um namoro em três tempos Delegação do MPLA e do PAIGC na China, em Agosto de 1960, a convite do Comité Chinês de Solidariedade com África e Ásia. Imagem da Associação Tchiweka de Documentação

(continua)

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Nota do editor

Último post da série de 13 de junho de 2025 > Guiné 61/74 - P26916: Notas de leitura (1808): Lembranças do que foi o Museu da Guiné Portuguesa (Mário Beja Santos)

sexta-feira, 9 de maio de 2025

Guiné 61/74 - P26783: In Memoriam (548): Recordar o meu amigo Carlos de Matos Gomes (1946-2025), o escritor Carlos Vale Ferraz (Mário Beja Santos)

Carlos de Matos Gomes (1946-2025), escritor Carlos Vale Ferraz


1. Mensagem do nosso camarada Mário Beja Santos (ex-Alf Mil Inf, CMDT do Pel Caç Nat 52, Missirá, Finete e Bambadinca, 1968/70), com data de 6 de Maio de 2025:

Queridos amigos,
Foi na apresentação do mais recente livro de José Brás, na Casa do Alentejo, que estive presencialmente com Carlos de Matos Gomes, já ele denotava um visível abatimento. Foi uma estima de cerca de um quarto de século, tínhamos sempre histórias para contar, livros para a permuta, momentos houve nos nossos diálogos em que eu pressentia nas suas perguntas a procura de respostas para o contexto das suas obras. Eu confessava-lhe a minha incredulidade, nunca percebi como é que ele arranjava tempo para tanta escrita, creio que a invasão da Ucrânia lhe deu ensejo para artigos quase diários que ele enviava para amigos e para a imprensa, e escreveu mesmo recentemente uma obra só com as suas reflexões políticas. Pertenceu ao núcleo fundador do MFA/Guiné, tal como Sales Golias e Duran Clemente. Não hesito em dizer que Nó Cego é referência máxima da literatura da guerra colonial, mas a sua autobiografia, Geração D, é um depoimento enriquecedor dos valores em que ele acreditava como cidadão e homem independente da esquerda.

Um abraço do
Mário



Recordar o meu amigo Carlos de Matos Gomes, o escritor Carlos Vale Ferraz

Mário Beja Santos

Carlos de Matos Gomes não ficou insensível às laudes que teci ao seu romance Nó Cego, teve a sua 1.ª edição em 1983. Tendo eu procurado compulsar o que de mais significativo se escreveu na literatura da guerra colonial, dei este romance como obra-prima absoluta, e mantenho sem hesitação tal qualificação. 

A nossa aproximação aconteceu quando um dia, num alfarrabista de Campo de Ourique, de saudosa memória, encontrei uma dúzia de exemplares de outra obra sua, Soldadó, uma narrativa humorística sobre um herói fruto do acaso, obra injustamente esquecida, telefonei-lhe para lhe anunciar a oferta, marcámos encontro à hora de almoço. E assim preparámos mais de um quarto de século de encontros amistosos, trocas de referências, cumplicidades. E dez dias antes do seu passamento telefonei-lhe para lhe pedir ajuda quanto a detalhes daquela operação a Cumbamori, onde ele esteve numa das frentes da operação do Batalhão dos Comandos Africanos. Disse-me que ia fazer tratamentos na Fundação Champalimaud, “mais uma batalha, a ver o que acontece, depois voltaremos à fala”. 

Não voltámos, fui-me despedir dele no velório, na Capela da Bemposta, agradeci-lhe tudo quanto me ensinou, por exemplo, o livro que escreveu com Aniceto Afonso, Guerra Colonial, Porto Editora, 2020, é um monumento de precisão e rigor, demorará muitos anos a ser reatualizado e enriquecido. E a sua obra autobiográfica Geração D, também da Porto Editora, 2024, é de uma sinceridade tocante, um poderoso testamento político.

Mas há um livro de 2017, A Última Viúva de África, que continuo a reter pelo deslumbramento da escrita, em sua homenagem aqui deixo alguns desses parágrafos que selecionei como eloquentes. Logo a dedicatória:

Aos que se interrogam.
Aos que vivem e deixam um rasto.
Aos que procuram as nascentes dos rios.
Aos que sofrem a inevitável derrota que sempre sucede quando um tirano esgota a esperança do seu povo e manda os seus soldados combater numa terra de que não é rei.
Aos meus netos e a todos os netos, para que tenham um futuro.


O fulcro da história é uma tal Madame X, o nome de código de uma informadora residente em Leopoldville, onde os movimentos independentistas angolanos, em particular a UPA/FNLA, tinham a sua base de onde recebiam o apoio político de Mobutu. No romance ela é Alice Oliveira, nascida e criada no Minho, emigrou para o continente africano, tornar-se-á, nesses tempos turbulentos do início da República do Congo em que havia mercenários que combatiam a favor da separação do Catanga, tornou-se numa informadora exímia, várias polícias secretas ficarão a dever favores, acabou por intervir nos acontecimentos de Angola, em 1975, e no fim do Apartheid na África do Sul, já nos anos 1990. Vai aparecer como amiga de Jean Scrame, um dos míticos comandantes das tropas mercenárias. Alice Oliveira, que se considerava a última viúva de África, iria morrer na Nova Zelândia. O filho, que ela viera entregar ainda bebé aos avós, em Portugal, pretendeu trazer o seu corpo lá para o Minho, depositá-lo numa igreja, consagrada como o Panteão. E assim começa a história.

Uma empresa cinematográfica vai centrar-se num filão promissor, parece um bom argumento, lá num ponto do Minho um milionário quer prestar uma homenagem à mãe, transferi-la de um outro continente para uma capela da quinta, uma equipa desloca-se, iremos ouvir falar de Miguel Barros, será uma figura central, cabe-lhe ilustrar acontecimentos que envolvem a Madame X e Jean Scrame, comandante dos Leopardos.

Ao chegar ao acampamento de Jean Scrame, caía o dia, Miguel Barros deparou-se com um inesperado cenário de dezenas, centenas de fogueiras. 

“Miguel Barros viu reunidos na messe, numa bacanal à volta de uma mesa coberta por uma toalha de bordados de Bruxelas, com travessas de loiças de Limoges cheias de restos de antílopes assados, de javalis, de macacos, garrafas de champanhe, copos de cristal da Bohemia, trazidos nos saques às casas abandonadas pelos colonos. Uma mulher grande e loira, que usava cremes e pós para a maquilhagem como se fossem estuque para cobrir fendas nas paredes, servia pedaços de carne abanando as mamas espremidas num vestido de seda costurado para o corpo de uma colona magra fugida da independência. Os homens gritavam pelo nome dela: ‘Ivette!’. Ela levantava a saia para deixar ver parte das coxas. Bebiam pelo gargalo garrafas do caríssimo champanhe Dom Pérignon, da Moët et Chandon, abandonado nas fazendas e nas lojas, a aguardar os dias de festas que nunca mais alegrariam. Só um deles, a um canto, de tronco nu, de cabeça rapada à navalha, com uma cruz de ferro pendurada por uma fita ao pescoço, bebia cerveja e berrava em alemão. O mercenário viera das estepes geladas para as savanas em brasa de África continuar a matança de comunistas e eliminação das raças inferiores.”

Vamos agora ver Miguel Barros no Victoria Hotel, em Stanleyville:

“Do Tennis Club de Stanleyville e do Cercle Hippique restavam os courts e as pistas cobertas de vegetação. No antigo hospital para os europeus estavam agora negros sentados à porta, à espera, eternamente à espera, afastando moscas e entrelaçando as cabeleiras. Das paredes dos edifícios iam desaparecendo os anúncios de agências de viagens da Wagons Lit e do American Express, de oficinas de mecânica e de stands de automóveis, de empresas de construção civil, de médicos e dentistas que já não davam consultas. As placas, tão esburacadas de tiros como as estradas pelas falhas de alcatrão continuavam a indicar as direções de Leopoldville, Elizabethville, Kampala, Goma.

Dos cerca de 5 mil europeus que residiam em Stanleyville e arredores antes da independência, restavam menos de metade. Quando desembarquei em Stanleyville corriam boatos entre os negros assimilados e os europeus que ali permaneciam da tomada de zonas importantes da Província Oriental pelos Simbas do Exército Revolucionário de Pierre Mulele. Em agosto, os Simbas capturaram Stanleyville – uma guarda avançada de apenas quarente negros drogados, descalços e armados de catanas, liderados por xamãs cobertos de peles de animais, com guizos de cobra nos pulsos e nos tornozelos, mascarados com cabeças de macacos. Em poucas semanas, cerca de metade do Congo caíra sobre o controlo dos Simbas. As portas do inferno tinham sido abertas. O monumento a Lumumba na praça central de Stanleyville transformou-se num altar onde Nicolas Olenga e os seus lugares-tenentes sacrificaram o que restava da antiga elite mestiça e europeizada de Stanleyville, os que se designavam como évolués. Ali foram levados, nus, os políticos, os jornalistas, os professores acusados amigos dos brancos, de traidores, e esventrados de pé, de mãos amarradas, retirados os fígados com eles vivos e dados a comer aos pigmeus Simbas.”


Mais tarde, deu-se o contra-ataque, vieram os paraquedistas, entraram depois em Stanleyville os Terríveis, comandados por Jean Scrame e mercenários brancos. Saquearam as povoações vizinhas, incendiando-as com os habitantes no interior das casas.

” Durante vários dias continuaram os tiros por toda a parte, principalmente para os lados do rio, onde eram executados os Simbas que não conseguiram escapar e os que não os haviam apoiado.” 


A lei do mais forte passara para Mobutu.

Obviamente que há mais trama neste romance que todo o horror que se viveu naquele período no Congo e posteriormente. A longuíssima carta que Miguel de Barros manda a Inácia Luz ilustra perfeitamente o sucesso cinematográfico com base nesta Madame X, Alice Oliveira, uma espia talentosíssima, a mãe dos mercenários, a guerreira que comanda os mortos, que estabelecera redes de contactos que informou as autoridades portuguesas do que iria acontecer no Norte de Angola, e que torna deslumbrante toda a trama do Romance, ela é a viúva branca de um paraíso perdido com a descolonização.

Ocorreu-me esta obra de Carlos Vale Ferraz, que recebeu o prémio literário Fernando Namora 2018 para lembrar o escritor que legou a mais bela obra da literatura da guerra colonial e uma referência na investigação da História contemporânea de Portugal que me honrou com a sua amizade. E assim me curvo respeitosamente em sua memória.

Junto como apêndice um texto que o Carlos escreveu no blogue A Viagem dos Argonautas sobre este seu romance:

A descolonização é um absurdo.

O romance desenvolve a reflexão do absurdo como atributo inerente do fenómeno que é habitualmente designado por “movimento descolonizador” de África feita por várias personagens. No início do romance, o narrador, um jovem português, estudante de filosofia na universidade de Lovaina, na Bélgica, fotógrafo por desejo de aventura, confrontado com as notícias e as reportagens dos tumultos que se seguiram à independência do Congo Belga, em 1960, considera como primeira impressão que os europeus andavam por África a extrair o que necessitavam para viverem melhor nas suas terras de origem, aonde regressariam após a campanha, como os pescadores de bacalhau que cumpriam temporadas na Terra Nova. Ou cumpriam penas de degredo longe das suas pátrias. O narrador apoiava as independências porque considerava um anacronismo a exploração direta de África pelos europeus: 

“Para mim, descolonizar constituía uma prova de inteligência. Não apoiava as independências das colónias por ser um direito dos povos colonizados. Não me converti ao anticolonialismo por ideologia, nem por moral, mas por pragmatismo. Quis conhecer os mercenários do Congo e Jean Scrame, em particular, para perceber porque lutava depois de administrar uma propriedade da qual já havia tirado o proveito que lhe permitia estabelecer-se noutro país, ou regressar à Bélgica.”

O narrador comete aqui a mais vulgar das confusões: refere-se, não à colonização, mas ao colonialismo. É de colonialismo que fala. O Congo Belga, como toda a África a sul do Sara, nunca foi colonizado, com exceção da Colónia do Cabo, onde os ingleses ensaiaram o que viria a ser o seu modelo de administração colonial (indirect rule). O Congo Belga (que começou por ser propriedade pessoal do rei dos belgas) foi sujeito ao fenómeno do colonialismo e o colonialismo foi um sistema de exercício violento de direitos de exploração de matérias-primas instituído e acordado na Conferência de Berlim, em 1885, entre potências europeias, para satisfazer as necessidades dos complexos industriais desenvolvidos com a energia da máquina a vapor. O colonialismo é um fruto da máquina a vapor e da revolução industrial.

Até à II Guerra Mundial foi indispensável as potências europeias assegurarem a exploração direta das matérias-primas, depois, passou a ser mais rentável delegar essa tarefa em agentes locais, as elites indígenas entretanto assimiladas e integradas na cultura e nos processos europeus. Mas houve, entre os europeus que foram para África executar tarefas de exploração direta, um grupo que, por razões diversas, assumiu aquelas terras como o seu destino final – que afirmaram ser a África, fosse o Congo, Angola, a Rodésia, Moçambique ou o Quénia, a sua pátria! Em Portugal utiliza-se o termo de “cafrealização” para designar esse processo, na Bélgica ele foi designado por “zairização”. O comandante de mercenários designado no romance como Jean Scrame e a portuguesa Alice Vieira, a última viúva de áfrica, pertencem a esse grupo. O narrador descobrirá, contudo, que nem eles – mesmo assumindo a sua nova identidade de africanos brancos – se opõem ao processo de independência das colónias, a um governo de negros, porque percebem que o sistema de administração e exploração delas se mantém, apenas mudaram os executores diretos, que passaram a ser títeres locais nomeados pelos brancos, europeus e americanos. O colonialismo manteve-se enquanto sistema de exploração de riquezas. O “Movimento Descolonizador” foi apenas uma mudança de tripulação num navio que continuou a realizar as mesmas viagens, transportando os mesmos produtos entre os mesmos portos.

Não existiu qualquer movimento descolonizador, que foi e é apenas uma designação utilizada para referir o movimento de transição da administração das colónias dos funcionários das potências europeias para uma elite de funcionários e políticos negros aculturados – ditos “assimilados” ou évolués, que, no essencial, replicam os métodos dos europeus e servem os seus interesses. Em termos políticos não existe qualquer descolonização. Não existe também qualquer libertação.

Mas não existe também descolonização em termos civilizacionais. Colonizar é a instalação de um grupo de uma dada sociedade no território de outra e implica troca de experiências, saberes, valores, relações comerciais e humanas, de forma mais ou menos pacífica ou mais ou menos violenta. Colonizar é sempre uma exportação de bens civilizacionais, da língua à religião. Entre o colonizador e o colonizado estabelece-se uma relação como a de uma gota de tinta que cai num copo de água. A gota de água dissolve-se e não é possível reconstituí-la, retirá-la da água onde se dissolveu. É por isso impossível reverter a colonização, retirar dos povos colonizados o essencial do que os colonizadores levaram e lhes inculcaram.

Nós, os portugueses devíamos conhecer bem a impossibilidade de descolonizar. Fomos colonizados pelos romanos e pelos árabes, mantemos fortes marcas dessa colonização – não fomos descolonizados até hoje. Colonizámos alguns pontos do mundo, e deixámos lá as nossas marcas, como os romanos e os árabes nos tinham deixado. O Brasil, Angola, Moçambique, a Guiné, Cabo Verde, São Tomé, não foram descolonizados, tornaram-se entidades políticas independentes, estados-nação com bandeira, hino, gravatas de seda ao pescoço dos hierarcas, número de ordem nas Nações Unidas e embaixadores que falam inglês. Tanto o discurso comum da “malvada descolonização”, como da “descolonização possível” são absurdos. O discurso da “entrega” é patológico, com origem na exacerbação de sentimentos que bloqueiam o raciocínio.

As antigas colónias europeias de África não se descolonizaram, não reverteram as instituições de governo introduzidas pelas potências coloniais, retomando as suas tradições do tempo antes da chegada dos colonizadores europeus. Pelo contrário, os dirigentes dos movimentos independentistas, do movimento descolonizador do pós II Guerra, foram particularmente violentos na aniquilação das autoridades tradicionais e dos costumes ancestrais – quase sempre com o aplauso dos antigos colonizadores e das suas instituições, com relevo para a ONU e as suas agências, que os elogiaram pela luta anti-tribalista, tomada como uma acção de modernidade.

O movimento descolonizador dos pós-II guerra é um gigantesco embuste. A descolonização de África foi, de facto, a adoção pelos africanos da “ordem” do colonialismo – constituição de estados-nação com os mesmos princípios dos estados-nação que instituíram o colonialismo, imposição dos seus sistemas políticos e jurídicos, das suas línguas, até dos seus deuses e, principalmente, das suas armas, do canhangulo à AK, do jipe ao Mirage. Não existiu qualquer libertação de África, a África política e a África dos povos estão sujeitas às mesmas regras e normas dos países que enviaram os seus exploradores ao continente africano no século XIX e que o dividiram em Berlim.

O facto de não ter existido nem descolonização, nem libertação de África não é nem bom nem mau – não existiu Mal, nem Bem, nem desastrosa descolonização, nem criminosa entrega, nem falsa libertação, houve sim uma realidade: a imposição por parte das antigas e novas potências coloniais de uma nova grelha de domínio de África, de uma grelha que facilita a relação e a exploração, pois quer uma quer outra se realizam segundo a regra dominante. O resto, o que subsiste da antiga África antes do colonialismo, das danças às mezinhas dos feiticeiros é folclore que serve de atração turística. Resta uma pergunta que Alice, A Última Viúva de África e Scrame, o último dos grandes comandantes de mercenários, colocam: Porque não podem e não puderam eles e os europeus manter-se em África como africanos brancos? Porque não pode ser a África uma pátria de brancos, como foram e são as Américas?

O romance ensaia uma resposta. A ficção é mais adequada a abordar questões difíceis que a análise política e histórica…
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Notas do editor

Vd. post de 13 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26683: In Memoriam (542): Carlos Matos Gomes (1946-2025), membro do MFA no CTIG, cor cav 'cmd', ref, escritor e historiógrafo, e grande amigo da Tabanca Grande

Último post da série de9 de maio de 2025 > Guiné 61/74 - P26781: In Memoriam (547): Maria Rosa Exposto, ex-alf enf pqdt (Bragança, c. 1940 - Portalegre, 2021), pertencia ao 4º curso (1964) e passou pelo CTIG... Rosa, que descanses em paz!

sexta-feira, 18 de abril de 2025

Guiné 61/74 - P26698: In Memoriam (544): Carlos Matos Gomes (1946-2025): o último adeus, anteontem, no cemitério do Alto de São João ... O Hélder Sousa representou condignamente a Tabanca Grande.





Lisboa > 25 de abril de 2020 (?) >  Carlos Matos Gomes (1946-2025) e a filha Carla. Cortesia da página do Facebook do nosso camarada, que se despediu da Terra da Alegria no passado dia 16. A notícia da sua morte, dada pela sua filha, teve mais de 2,5 mil comentários e cerca de 500 partilhas.
 
Tinha 4,3 mil amigos no Facebook, 230 em comum. Era amigo do Facebook da Tabanca Grande, mas não integrava o blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné


1. Mensagem do Hélder Sousa, nosso colaborador permanente, provedor do blogue da Tabanca Grande:

Data - 17 abr 2025 18:07

Assunto -O funeral de Carlos Matos Gomes

Caros amigos

Na passada terça-feira foi indicado que o velório desse nosso camarada decorria das 19:00 às 23:00, salvo o erro.

Mas não fui lá, pois estive na tomada de posse dos elementos eleitos para os diversos Órgãos  da minha Ordem profissional, a OET (Ordem dos Engenheiros Técnicos), onde também preenchi um cargo.

Isso decorreu na Sala Macau da Fundação Oriente. Finda a cerimónia, seguiu-se um jantar.

No dia seguinte, tinha sido divulgado que as exéquias iriam ter lugar às 11:00, mas depois veio uma informação que seria a partir das 13:00, finda a qual o corpo seguiria para o Crematório do Cemitério do Alto de S. João.

Desloquei-me então para Lisboa e fui direto ao Cemitério, aguardando por lá, em conversas de circunstância com algumas pessoas presentes, a chegada do caixão, o que ainda demorou algum tempo e sob um tempo de chuviscos.

Foi formada uma guarda honra que disparou três salvas à entrada do caixão. Essas salvas foram de algum modo impressionantes dado o "teto baixo", o que fez ecoar fortemente na parada do Alto de S. João.

Da entrada ao Crematório é uma pequena distância, percorrida atrás da viatura.

Houve uma "encomendação" por intermédio de um oficial padre (não registei a sua patente mas creio que major). Finda a mesma, tomou a palavra o coronel Vasco Lourenço, fazendo o elogio fúnebre e exaltando as qualidades e o contributo que o coronel Matos Gomes deu para a Democracia e depois o Dr. João Soares, na qualidade de "civil", amigo pessoal, relembrando também peripécias vividas em comum.

No final cantou-se a "Grândola, Vila Morena" e depois o Hino Nacional.

Ao despedir-me da filha, disse que estava ali em meu nome e também em nome do Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné.

Boa "passagem" para vós.

Abraços, Hélder Sousa

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Nota do editor:

segunda-feira, 14 de abril de 2025

Guiné 61/74 - P26688: S(C)em Comentários (64): o blogue da Tabanca Grande, segundo Carlos Matos Gomes (1946-2025)


Carlos Matos Gomes (1946-2025)
Foto de José Morais
(com a devida vénia...)

1. Excerto do poste P26683 (*):


(...) Penso, sem qualquer lisonja, para a qual tenho espinha demasiado rígida e a boca demasiado dura, que este blogue é algo de extraordinário. Um daqueles casos que nos aquecem a esperança e nos incham a alma.

É extraordinário a vários títulos: pela ideia de reunir antigos combatentes num espaço democrático (o que quer dizer de livre expressão de cada um e de obrigatório respeito por todos e cada um dos outros), onde relatassem as suas experiências de há 30/40 anos, revivessem a sua grande aventura dos 20 anos, restabelecessem contactos, amizades e camaradagens, recordassem através da escrita e da imagem os lugares, os acontecimentos e as pessoas com quem partilharam os seus tempos da guerra, que servisse até de veículo de ajuda.

É extraordinário porque tem mantido o diálogo entre pessoas com diferentes visões da guerra e das situações num elevado nível de tolerância, mesmo quando o calor provoca reacções mais ásperas.

É extraordinário porque o colectivo do blogue conseguiu criar um "espírito de corpo" entre os tabanqueiros, que se reveem nas histórias, nos convívios que se vão multiplicando, nas acções que se desenvolvem, seja de solidariedade e ajuda ao povo da Guiné, seja a camaradas em dificuldades, seja ainda a familiares que procuram reconstituir as histórias de parentes seus na guerra.

O bloque e a Tabanca são um espaço de pureza e generosidade.

A pureza do blogue e dos seus tabanqueiros tem a ver com aquilo que é a sua matriz, a sua característica fundadora, o seu ADN: o blogue serve para relatar, contar, descrever, para transmitir emoções, para despejar pesos acumulados.

O blogue é a camaradagem, o que desaconselha grandes reflexões, análises e explicações. Deve continuar assim. É a sua força. (...) (**)
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Nota do editor:


(**) Último poste da série > 13 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26682: S(C)em Comentários (63): Era o que faltava um miliciano, como o Rui Alexandrino Ferreira, com uma Torre e Espada! (Antº Rosinha)

Guiné 61/74 - P26684: In Memoriam (543): Carlos Matos Gomes (1946-2025): velório, dia 15, terça, a partir das 19h, na Capela da Academia Militar, funeral no Alto de São João, quarta, pelas 11h


Foto nº 1


Foto nº 2

~
Foto nº 3


Foto nº 4

Guiné-Bissau > Bissau > Fortaleza da Amura > 7 de Março de 2008 > Amura: um lugar repleto de história(s)

Fotos e legenda: © Luís Graça (2008). Todos os direitos reservados. [Edição: Blogue Luís Graça & Camaradas da Guiné]



Visita no âmbito do Simpósio Internacional de Guiledje (Bissau, 1 a 7 de Março de 2008), no último dia do evento. Na foto nº 1, o cor cav 'cmd' na situação de reforma, Carlos Matos Gomes (1945-2025), um homem do MFA da Guiné e um conhecido e talantoso autor de romances de guerra como Nó Cego, Soldadó ou Fala-me de África (que assina sob o pseudónimo literário de Carlos Vale Ferraz)... É também não menoso notável historiógrafo da guerra do ultramar / guerra colonial, coautor, juntamente com Aniceto Afonso, de diversas publicações.

 Na foto, por detrás do Matos Gomes, vê-se o edifício, em ruína, da antiga 2ª Rep do QG/CCFAG, a famosa Rep Apsico, onde trabalhou Otelo Saraiva de Carvalho e Ramalho Eanes... e que tutelava o popular PIFAS (Programa de Informação das Forças Armadas) que fazia concorrênmcia a não menos famosa "Maria Turra" (a Rádio Libertação, do PAIGC; que emitia a partir de Conacri).

Nas fotos nºs 2, 3 e 4 , vemos o Matos Gomes a servir de cicerone ao Paulo Santiago e a mim próprio. Entre os edifícios históricos, há o do antigo Com-Chefe (foto nº 4). Foi aí que um grupo de conspiradores entrou de rompante no gabinete do Com-Chefe, e deu voz de prisão ao General Bettencourt Rodrigues, na manhã de 26 de Aril de 1974, o chamado golpe de Estado do MFA na Guiné. Portanto, foi na Amura e não no palácio do Governador que tudo aconteceu...

Desse grupo de oficiais revoltosos faziam parte: ten-cor eng trms Mateus da Silva, ten cor eng trms Maia e Costa, maj 'comd' Raul Folques,  maj pqdt Mensurado, cap art  Simões da Silva, cap enf trms Sales Golias, cap 'cmd' Carlos Matos Gomes, cap 'cmd0 Batista da Silva, Cap 'cmd' graduado Zacarias Saiegh, cap ten Pessoa Brandão (Armada ) e cap mil José Manuel Barroso.

O Carlos Matos Gomes, na altura capitão do Batalhão de Comandos da Guiné (a par do maj Raul Folques e do cap grad Zacarias Saiegh) foi um dos protagonistas do 25 de Abril neste palco da história recente dos nossos dois países.. Voltaria lá, à Amura, 34 anos depois...

Hoje, na Amura, repousam os restos mortais de Amílcar Cabral e de outros "combatentes da liberdade da pátria", como Osvaldo Vieira, Domingos Ramos, Tina Silá, Pansau Na Isna, 'Nino' Vieira e Rui Djassi.
 

1. Mensagem da filha do nosso camarada, Carla Lickfold Matos Gomes (que tem mais informação sobre o pai, na sua página pessoal no Facebook):

Aos amigos que nos quiserem acompanhar nas despedidas do meu pai, algumas informações: 

  • O velório estará aberto ao público em geral, terça-feira, a partir das 19h e até às 23 na Capela da Academia Militar. 
  • As cerimónias fúnebres serão na quarta-feira pelas 11h, com missa de corpo presente, de onde partirá para o Cemitério do Alto de São João para ser cremado.
 
Grata a todos pelas vossas mensagens, bem sei do privilégio de ter tido este pai. Foi para mim uma honra acompanhá-lo na doença até esta fase final que encarou com a bravura, humor inteligente e força que lhe era tão característica até ao último minuto. Falámos de política até ao fim. Vamos ter muitas saudades dele.

Fonte: Página do Facebook de Carlos Matos Gomes, domingo, 13 de abril de 2025, 19:48

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Nota do editor:

Último poste da série > 13 de abril de 2025 > Guiné 61/74 - P26683: In Memoriam (542): Carlos Matos Gomes (1946-2025), membro do MFA no CTIG, cor cav 'cmd', ref, escritor e historiógrafo, e grande amigo da Tabanca Grande